domingo, 9 de outubro de 2011

Diário de uma louca viagem

Sinto que estou esquecendo aos poucos uma coisa que eu gostaria muito de me lembrar para sempre. Lógico que será inesquecível, mas existem detalhes que vou resgistrar pela primeira vez.

Sim, é a última vez que falo sobre isso. Sobre nossa viagem maluca a Machu Picchu.

Sabe, ninguém fazia a menos ideia do que ia acontecer com a gente. Na verdade, ninguém fazia mesmo a menor ideia que essa ideia que nasceu do nada modificaria nossa vida.

No ano anterior o Pascutinho tinha feito essa viagem. Meu pai fez muitos anos antes. Comentei com a Cauane ela disse que topava ir, de repente a Zoca se enfiou no meio da viagem e sem lermos nada e pesquisarmos (quase) nada decidimos ir. A Carol eu ainda não falei, porque para variar, ela decidiu um dia antes de partirmos. De repente ela comprou a passagem da Célia que tinha desistido e partiu conosco.

Pra variar ela foi a última a chegar na rodoviária. Ela viajou com um documento RG de criança, de forma que todas as fronteiras que passavamos não queria aceitá-la dentro do país.

Bom, partimos todas feito loucas. Eu, a Cauane, a Carol, a Zoca e o Felipe (que a Zoca tinha conhecido pelo orkut e estudava na PUC também). Fomos logo no dia 26 de dezembro, não sabíamos nem quando íamos voltar. Minha mãe não entendia nada (na verdade ela nunca acreditou que eu fosse capaz disso, depois dessa viagem ela acredita em qualquer coisa que eu falo, até as absurdas).

Antes de sair de casa, meu pai me deu um conselho: "Menina, tome cuidado, NÃO ACREDITE EM NINGUÉM POR AÍ!" Devia ter escutado meu pai (a voz do pai é a voz de Deus). E não foi só ele...

No ônibus indo pra Corumbá conhecemos algumas pessoas. A maioria marinheiros de primeira viagem (como nós)com uma mala gigantesca e super empolgados. Duas pessoas em especial: Alan e Marcelo.

Passamos a fronteira do Brasil com a Bolívia, paramos numa cidade "fantasma" (fantasmagórica), até hoje não entendo aquela cidade. Lembro-me da Carol pedindo infomação em espanhol e o cara respondeu em portugues, caímos na gargalhada o cara ficou nervoso e não respondeu!

- O Trem:
O trem da morte é muito bizzaro. Ele é dividido em classes (a verdadeira desigualdade social. Na classe que estavamos tinha só mochileiro e classe média. Aquele trem demorou muito pra chegar ao destino. Cada parada que ele fazia entrava oitocentos bolivianos vendendo carne, pollo (frango), papas (batatas), sucos dentro de sacos plásticos, combo (com tudo isso), milho... Ou seja, eles entravam gritando e ainda passavam com aquele cheiro "hummm de abrir a apetite" (lê-se uma irônia aqui). A Carol teve uma idéia: "Anne toma um dramim para dormir". Eu que sempre vou na dela, tomei! Fiquei chapada, dopada, pra ser mais enfatica, drogada. Não conseguia abrir o olho de forma alguma. Aquela gritaria e eu não entendia nada, porque meu olho não queria abrir e a minha consciencia não queria dormir.
De repente, sinto algo muito pesado no meu ombro direito. Não conseguia virar a cabeça para ver o que era. Mas logo vi que era um besouro quase do tamanho do meu ombro inteiro, aí pensei:"Caramba" (só isso que pensei). Em vão tentei tirar, mas nem minha mão me obedecia (eu não tinha força), aí resolvi falar para minha amiga Carol que estava ao meu lado (chapada de dramim também). "Carol, tem um besouro no meu ombro". Aí a Carol olhou, arregalou os olhos e disse: "AAAAAAAAAAAAAAA" e saiu correndo pelo corredor (e me deixou lá). Tomei um baita susto e consegui tirar o bicho atrevido do meu ombro. Mas eu tinha que tentar fechar a janela para que isso não se repetisse. Entre uma tentativa e outra, eu dava uma dormidinha, porque meus olhos pesavam tanto, tanto...

Lá nessa cidade fantasma- fantasmagórica conhecemos o personagem especial da nossa viagem:

- Samuel:

Samuel era moreno, de olhos puxadinhos, que falava espanhol tosco. E foi assim que nós o conhecemos: Estava nossa romântica amiga Carol (vou falar muito dela ainda) lendo a Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera e escrevendo no seu caderninho suas primeiras impressões da viagem. Ela sentada, meiga e solitária (um convite para a aproximação masculina)eis que chega um homem muito educado. Realmente não sei o que eles conversaram, nem o xaveco que ele jogou nela, só sei que ela entrou correndo no quarto (tosco e sujo de um alojamento que nós pagamos cada uma 3 reais para ficar [eu achei um máximo na época])dizendo: "Pessoal, conheci um diplomata boliviano! Ele vai pegar o trem conosco, ele é super legal, ele fala frances, espanhol, japones e o pai dele tem um hotel na Bolívia e disse que podemos ficar lá com TUDO de graça, disse ainda que tem um jeep e para nós tomarmos muito cuidado, que a viagem é bem perigosa".

No primeiro instante todo mundo ridicularizou a Carol. Coitada da Carol. Mas depois cada uma de nós fomos conhecendo melhor o Samuel, ou melhor, o Samuca.

Pegamos o trem da morte (de Puerto Quijaro a Santa Cruz de la Sierra), todos nós e o Samuca. Na estação de trem, o Samuca foi até o hotel do pai dele, arrumar os quartos para nós e avisar os empregados do pai dele que receberia uns viajantes brasileiros(na verdade ele deve ter dito uns otários brasileiros). E nós ficamos lá, esperando ele.

O Samuca foi gente boa com todo mundo. Pra mim ele disse que ia me levar a França um dia, pra Carol ele disse milhares de bobagens, pra Cauane ele disse que ia levá-la para andar de cavalo e atenção me lembro bem o que ela disse depois disso: "AIIII, MEU, NÃO ACREDITO, VOU TE DAR UM BEIJO, EU TE AMO!", pra Zoca ele disse que ia sair com o carro oficial pra pegar um Jeep que ímos viajar de Jeep e atenção, a Zoca entrou no quarto dizendo: "EU VI, EU VI ELE SAIU EM UM CARRO OFICIAL, TINHA UM BRASÃO BEM GRANDE NA PORTA DO CARRO". (Esses detalhes serão importantes mais tarde).

Bom, ele nos levou para a salsa a noite. E ele conhecia todo mundo, inclusive a governadora da Bolívia (detalhe: a Bolívia não tem governadora). Nossa né, o Samuca era verdadeiramente gente boa, resolvemos que não íamos deixar ele pagar nada, pagamos a pizza dele, a raspadinha, o taxi e brindávamos: "Um brinde ao Samuel!" com a breja que não deixavamos ele pagar também.

As meninas queriam ficar na salsa (por causa dos colombianos bonitos) e os meninos queriam ir embora. Eu também queria ficar na salsa, mas vi na face dos meninos e, principalmente do Samuel, seu olhar de desapontamento para com a atitude das meninas. Fiquei com dó. Resolvi voltar com os meninos...

Naquela noite o Samuel ficou no meu quarto, falando, falando, falando, falando. Ele disse que a namorada dele estava dentro do avião da Tam (aquele que caiu), contou suas aventuras sexuais com as francesas (quando ele morou lá). Enfim, o cara tava bizzaro e fiquei com medo dele. Chamei o Felipe pra ficar no quarto comigo, mas o besta quadrado, tava morrendo de sono.

Falei para o Samuca que eu estava com sono e que ele podia ficar escutando meu mp3 (na verdade da Cauane) porque ele tinha que ficar acordado esperando as meninas (pois os funcionários do hotel do pai dele, não as conhecia, por isso não deixariam elas entrar). Ele me pediu o celular da Carol, porque ele ia comprar um Chip e nós poderiamos ligar de graça para nossa familia no Brasil, eu emprestei, achei que não tivesse problema. Para o Felipe, em seu estado de sonolencia, ele pediu sua super Cyber-shot, o Felipe emprestou...

No outro dia, cadê Samuel???????

Sumiu com nossas coisas e sumiu da face da terra! Tomamos um golpe e ainda tivemos que pagar a conta do hotel. O espertinho do Marcelo picou a mula, quando ele percebeu que era golpe, sumiu e deixou-nos resolvendo a parada com a dona do hotel (que dizia que ia chamar a polícia boliviana- a mais corrupta da América).

Enfim, esse foi o primeiro golpe!

Mas a viagem segue né? Não podemos desanimar... Seguimos para Cochabamba. Lá passamos nosso Ano Novo, viemos a descobrir que não se comemora o Ano Novo, ficamos num hotelzinho de uma familiazinha, com uma velhinha super gracinha...
Para comemorarmos o Ano Novo compramos chapéus de comemorar sei lá o que, uma vodka intragável e um monte de sopa instantanea (esqueci o nome). Nossa que desânimo, me lembro até hoje!

- Cristo de Cochabamba

Naquela cidade tinha um Cristo, tipo o nosso Cristo redentor, mas parece que ele era maior e tinha os traços indígenas no rosto. Era bonito. O problema que a gente subiu de escada, eram milhares, zilhares de escadas e nós começamos a subir no começo da tarde e chegamos lá em cima quase de noite, na hora de descer... sentavamos de quatro em quatro degraus (alguém teve a idéia de beber cerveja antes).

Seguimos a viagem para La Paz. Lá era frio, mas começou a ficar boa a viagem...

- Onibus a caminho de La Paz
Foi a pior viagem (desde então), queriamos enconomizar com a diária do alojamento e resolvemos viajar de madrugada no ônibus que somentes os índios pegam. Nesse busão as crianças dormiam no corredor, não tinha banheiro e estavamos chegando cada vez mais próxima da Cordilheira dos Andes. Estavamos subindo, subindo e como fomos por terra não sentímos tanto a altitude. Só o nariz da Cauane que sentiu. Não parava de sangrar...

O onibus era extremamente fétido. As indias fedem muito, um cheiro indescritivel... Parece que elas só levantam a saia para fazer xixi e fazem em qualquer lugar... Eu grudava o nariz no cabelo da Carol (porque eu estava do lado do corredor) e a Carol passava frio do lado da janela. Atrás a Cauane e seu nariz sangrando e a Zoca dormindo, ou preocupada com a Cauane (não lembro), o Felipe sentado do lado do indio e sempre sorrindo, acho até que ele tava puxando um papo com o índio.

- Hostel em La Paz, os Argentinos e o mercado das bruxas
O hostel em La Paz era muito hippie, só tinha argentinos e só a galera. Era muito bom! Lá tomavamos banho quente e tinhamos banheiro só para nós. (A maioria dos hostels nós dividiamos).
Conhecemos tres argentinos agradáveis. Um era ator (o mais velho), outro historiador e o outro não me lembro, alguma coisa ecológica deve ser... Juntos fomos a vários museus e um lugar especial: O mercado das bruxas.

A Cauane e a Zoca se envolveram nos argentinos e eu a Carol nos envolvemos no mercado. A Zoca também se envolveu no mercado e na internet (que ela não parava de conversar com o Fábio pelo msn).
Um índio bruxo me chamou pra ler meu futuro com alguma coisa que eu não sei explicar o que é. Ele coloca um líquido com cor de ferro dentro da água e esse líquido vira sólido e faz um desenho (que pra mim eram só bolhas). Aí esse índio lê essas bolhas, aliás esses desenhos, porque lá está o meu futurooooo!! Todo mundo fez um círculo em minha volta, pra saber como aquele negócio misterioso incompriensível diria. Aí o índio começou a falar, a falar, a falar sobre meu futuro, só que detalhe: ele falava em quechua (a língua deles) e depois em castelhano ele falou: 10 bolivianos!!
Mais um golpe!!!
Engraçado, que todas as pessoas que estavam ao meu redor sumiram e foram dar risada em algum lugar...

Cada um foi para um lado. A Cauane e os argentinos foram ver uma coisa, eu e a Carol fomos para outro lado e a Zoca sumiu. Ficamos super aflitos! Voltamos para o hotel para ver se a Zoca estava lá - já era de noite - e afinal, nós estavamos com a chave.
Encontramos a Zoca sentada na escada com o olho bem pequenino, ela estava num estado de transe... Perguntamos: "Zoca, o que aconteceu?". Ela nos disse:"No mercado das bruxas, fiz um ritual do amor. Foi com uma índia, ela me deu um monte de coisa pra tomar, umas ervas pra cheirar. Ela me pedia pra rodar, rodopiar, dar voltas e depois sentar numa cadeira. Ela baforava na minha cara um charuto esquisito e falava um monte de palavras em quechua e eu não entendia nada. Estou em transe..."

Mas sabe como a Zoca é contando uma história né?? É incrivel, é muito bom. Eu e a Carol perguntamos como fazíamos para ir lá, a Zoca explicou e nós fomos (lembrando: já era noite).

Assim, eu e a Carol, fomos andando novamente para o mercado das bruxas. A noite aquele negócio era sinistro! Cheio de bichos empalhados, músicas naquelas flautas andinas, fazendo eco pelos quarterões... Encontramos duas indias paradas na porta de uma loja (parecia que era o lugar que a Zoca nos falou) e fomos lá perguntar no nosso mais tosco portunhol que queríamos fazer um ritual do amor. Elas não entenderam nosso idioma.
Aí a Carol resolveu fazer mímica. A mímica que ela fez foi como a Zoca nos contou. A Carol fez assim:"Mira, mira", depois começou a imitar que estava cheirando vários potes, depois começou a rodar feito idiota várias vezes, depois fingiu que estava fumando um charuto e simulava que jogava a fumaça na minha cara. Eu caí na gargalhada! Ah, e as índias também! As donas da terra (índias) cochicharam uma com a outra (e nós ouvimos bem): "Aaaa acho que elas querem Ayuasca". Aí eu olhei pra Carol, a Carol olhou pra mim e nós dissemos juntas: "È isso mesmo, queremos Ayuasca". As índias fizeram um super esquema de contrabandear o pepino gigante para nós.

Gente, não achem que somos drogadas, nem sabíamos o que era isso e nem como íamos tomar aquele negócio (e nem se íamos tomar aquele negócio), mas o impulso que nos fez comprar!! Voltamos excitadas com a nossa nova aquisição, reunimos a galera pra contar. Mas para o nosso desprazer, os argentinos e a Cauane já tinha comprado e já sabiam do esquema...

Naquela madrugada, nós saímos para um bar super legal, chamava La Luna. Mas a cerveja era muito cara e resolvemos tomar a bock, que é mais forte e vem quente. Cada um tomou uma caneca, juro que foi o sufuciente para todos sairmos bebados daquele bar (que era longe do hostel). Saíamos andando pela cidade cantanto: "E o meu jardim da vida, ressecou ou morreu, do pé que brotou Maria, nem Margarida nasceu (...)", cantávamos bem alto (os argentinos conheciam essa): "Viva, viva, viva a sociedade alternativa". Naquelas ruas escuras, de paralelepipedos, estreitas e com muito eco, seguímos cantando... até que encontramos os militares que estavamo no palácio de governo (o Evo Morales estava lá) e resolvemos parar. Avisamos os militares que amanhã voltaríamos para falar com o Evo Morales sobre o caso Samuel...

No outro dia de manhã, voltamos ao Palácio do governo e marcamos um encontro com o Evo Morales, falamos que eramos historiadoras brasileiras e mais um monte de baboseiras. O funcionário do palácio mandou voltarmos mais tarde (não sei se ele falou só para despachar-nos logo). Aí resolvemos tomar uma cervejinha e comer alguma coisa antes de falar com o Evo Morales, só que ficamos todos bebados e esquecemos...

Seguimos viagem à Copacabana...
Tivemos que viajar, uns sentados na cadeira do busão outros sentados no chão porque não tinha lugares. Tivemos que revezar algumas vezes o assento. Mas o visual daquela viagem, era indescritível...
O Pascuti já tinha nos alertado que Copacabana era maravilhosa, fica no lago que divide a Bolívia do Peru. Lá é cheio de histórias, mitos, um visual (que nossa senhora) só vendo para acreditar, a comida era muito boa (isso é um milagre nesses países), lá se come um peixe que eles pescam no lago, a Truta. Antes de servir a truta, eles serviam sopa (lá era muito frio, aí sim muito perto da Cordilheira dos Andes), a noite era maravilhosa, com barzinhos, muita música de todos os lugares do mundo, lá era uma parada obrigatória, ficar mais tempo vale a pena...

- O capeta em forma de guri

Encontramos um alojamento que era uma pexinxa (diferente de todos da região). Chegamos já era tarde. Ahh, detalhe: a Zoca já estava mal (no ritual do amor, ela comeu uma comida bizzara e ela ficou muito fraca e com desinteria). Só queriamos tomar um banho e ir para a maravilhosa noite de Copacabanaaaaaa. Ai fomos tomar banho, no banheiro compartilhado pro alojamento todo. Foi a Cauane, foi o Felipe, fui eu, foi a Carol, foi a Zoca... O menino que cuidava do alojamento era um ser bem misterioso, ele era bem baixo (assim como uma criança), tinha os traços de uma criança indigena, ele usava uma bota e um chapeu de cowboy(como um adulto), seu olhar era de adulto. Não sabíamos se era uma criança ou um adulto.
Para tomar banho, nós pagavamos a parte e por minutos. Lógico que pagamos por cinco minutos apenas. Mas como lá era muito frio, queríamos ficar um pouco mais de cinco minutos e o menino-homem começava a bater muito forte na porta (tumtumtum) e gritar: "CINCO MINUTOSSSS". Aí nós todos assustados saíamos logo do banho. Mas a paciencia do guri, foi bem curta, quando ele percebeu que nós eramos, eu diria, um pouco folgados ele começou a ameaçar cortar a água quente. Chegou a vez da nossa amiga (já doente) Zoca tomar banho- voces sabem, quando estamos doentes, ficamos muito sensíveis e irritados- o guri começou a gritar na porta: "CINCO MINUTOS (TUMTUMTUM)". Ai não contente o guri desligou a chave da água quente e a Zoca estava no meio do banho. Do quarto só ouvimos: "CARA........ TÁ FRIOOOOOOOOOOOOOOO. LIGA ESSA M................ PORR........" A Zoca ficou louca, saiu do banheiro cheia de sabão, entrou no quarto começou a chutar todas as malas que via pela frente e gritava-chorando:" EU ODEIO ESSE LUGAR, EU ODEIO ESSAS PESSOAS, EU ODEIO A BOLIVIA, EU VOU EMBORA"

A Zoca não estava bem e não quis sair, mas nós nos arrumamos para a melhor noite de Copacabanaaaaaa. Aí quando estavamos todos arrumados, fomos pedir ao guri para abrir a porta para nós, pois íamos sair. O guri virou e disse: "NÃO VOU ABRIR, VOCES NÃO VÃO SAIR!". Aí nós: "AHÃM? COMO?". O capeta em forma de guri:" NÃO VOU ACORDAR DE MADRUGADA PARA ABRIR A PORTA PARA VOCES, AMANHÃ EU ACORDO CEDO PARA TRABALHAR, SÃO AS NORMAS NO ALOJAMENTO, NINGUÉM SAI E NINGUÉM ENTRA DEPOIS DAS 23H!".
Enfim...
Não saímos!
Voltamos para o quarto e contamos pra Zoca que caiu na gargalhada. Queríamos nos vingar daquele capeta em forma de guri, rasgamos todos os colchões e tacamos limão dentro, para apodrecer tudo e aquele capeta em forma de guri ter um prejuízo.
Mas não conhecemos a noite de Copacabana...

-Ilha do Sol
Pegamos um barco e atravessamos o Lago Titicaca, nossa como é lindo, como é alto também, cerca de 4500m de altitude. Vocês tem noção o que é isso? È quase a completa ausencia de oxigênio.
O Felipe se envolveu com uma menina, ou com uma galera argentina (não me lembro, mas sei que foi um pretexto dele se livrar da gente, mulheres, que não parávamos de brigar). Então foi, eu, a Carol, a Zoca e a Cauane. Sentíamos fome toda hora e a Cauane vendia 1 bolacha por 1 boliviano, enfim, tínhamos que pagar por cada bolacha, mas como estávamos morrendo de fome...
Resolvemos que íamos dormir na ilha por uma noite. Aquele lugar, era paradisíaco, valeria a pena passar uma noite no breu, na calada da noite de lua cheia e céu estrelado. Deixamos todas as nossas coisas no lado Sul da Ilha (a idéia era fazer a trilha e voltar).
Começamos a trilha. Cada uma no seu ritmo, a Cauane lááá na frente. A Carol no momento dela (sozinha) eu e a Zoca conversando atrás. No caminho daquele magnetude esplenderosa natureza avistamos uma cholita (índia), era uma criança muito meiga, ela vestia uma saia até o joelho, um chapéu com duas lindas trnças longas pelos ombros, um sorriso desenhado no rosto. Ela nos disse: "QUER TIRAR UMA FOTO?". Eu e a Zoca pensamos "Que lindinha!" e dissemos:" CLARO! VAMOS TIRAR UMA FOTO!" Do outro lado da trilha (que dava uma pequena volta) avistamos a Carol gritando e fazer um gesto negativo com as mãos. Não entendemos nada e tiramos dezenas de fotos com a pequena. Depois que terminamos, agradecemos a criança e já nos preparamos para continuar na longa trilha. Aí a pequena cholita nos disse: "10 BOLIVIANOS!"
Mais um golpe...
Depois soubemos pela Carol que ela queria nos dizer isso (ela também teve que pagar a menina).

No meio da trilha, um homem nativo nos parou e disse que para caminharmos na Ilha tínhamos que pagar. Achamos um absurdo, estavamos cansadas de ter que pagar tudo por aquele lugar (sem dizer que pelo caminho várias crianças queriam dar o mesmo golpe da pequena adorável [detestável] cholita, eles queriam nossa garrafa, nossas moedas, nossas calcinhas) . Para o homem resolvemos mostrar nossa indignação. Ele nos disse: "10 BOLIVIANOS PARA ANDAR NA ILHA", e nós respondemos: " POR ALGUM ACASO O SENHOR É DEUS? HEIN? DIGA-NOS VOCÊ É DEUS, HEIN? ISSO É PATRIMONIO DA HUMANIDADE, EU SÓ PAGPO SE FOR PRA DEUS!". O homem nativo ficou bastante assustado e nos deixou passar (deve ser porque ao longo do caminho teríamos que dar essa justificatica para uma porção de pessoas que nos pediam o bilhete para caminha na ilha).
A Cauane pagou para caminhar e nós ficamos zuando ela. A menina de cabelos dourados e personalidade forte (a Cauane) se irritou conosco e partiu na frente, com raiva e com as bolachas da venda.
Ah, lembrem-se a Zoca estava doente e andando na trilha. A trilha que era de aproximadamente quatro horas ida e volta, nós fizemos em seis horas só a ida... Tínhamos que parar em cada pedra grande pra Zoca se aliviar, sorte que eu tinha levado muitos lenços umidecidos (conselho de mãe). A Zoca teve a sorte de deixar um pouco dela em ruínas incas (isso é para poucos). As montanhas daquela trilha eram muito brincalhonas, quando pensávamos que íamos escalar uma, vinha logo outra para acabar com a nossa graça. Muitas montanhas, uma altitude inespirável e nosso condicionamento físico (péssimos) auxiliou a demora. Quando paramos pra comer algo encontramos a Cauane voltando... Eu pedi encarecidamente para ela que fizesse a trilha conosco e depois voltaríamos de barco para o lado sul. Mas a personalidade de pedras incas não aceitou e ainda nos disse: "VOCÊS NÃO VÃO CONSEGUIR, POIS ESTÁ ESCURECENDO". Devíamos ter ouvido a Cauane e deixado o orgulho de lado...
Chegamos no lado norte da Ilha e estava escurecendo, pedimos conselhos para os nativos de como voltaríamos naquele mesmo dia para o lado sul, mas eles riam e não respondiam nada. Soubemos de um tal de seu Jorge (não sei se é esse nome) que tinha um barco, ele morava na beirada do lago e talvez nos levaria.
Descemos toda a montanha em busca do senhor Jorge, encontramos um grupo de hippies muito loucos. Eram de vários países e estavam acampando perto da casa do senhor Jorge. Alguns deles nos ajudou a buscar o seu Jorge e dizia que podíamos ficar lá com eles aquela noite. Desconsideramos o conselho do jovem hippie e encontramos o Jorge. Pedíamos para nos levar do outro lado de barco e ele nos disse: "IMPOSSÍVEL! JÁ ESTA ESCURECENDO, AMANHÃ EU AS LEVO E COBRO 100 DÓLARES!". E nós: "100 DÓLARES? NEM A PAU JUVENAL!"
Estavamos ferradas... Voltamos para o lado mais habitado da Ilha e pegamos um quarto lá... Pensávamos em voltar eu e a Carol pela trilha absurdamente maluca no outro dia as 7 da matina e a Zoca (que estava doente) pegaria o barco para voltar a Copacabana. Encontraríamos ela por lá e deixaríamos as coisas dela (que estava sob os cuidados da Cauane no lado sul [lê-se uma ironia]).
Naquelaq noite fria do lado norte da Ilha, a Carol queria fazer alguma coisa, mas como estávamos acabadas ela foi sozinha. Conheceu um casal de brasileiros que combinou de encontrá-la mais tarde. A menina Carol se perfunou com o mesmo cheiro de antes, escovou os dentes com folha de coca, penteou os cabelos com o dedo e foi encontrar os novos amigos. Poucos instantes ela voltou! Nós perguntamos: "UÉ, CAROL, JÁ?". E ela: "HÃM!"
Depois descobrimos que ela havia tomado um bolo...

Acordamos as 7 da matina e partimos para a trilha. Antes fizemos o sinal da cruz e pedimos ao bom Deus que nos desse força para encarar aquela trilha! Caminhamos, caminhamos, caminhamos e nos perdemos... Perguntamos a uma cholita que apareceu em nosso caminho (coisa de Deus) como faríamos para chegar ao lado sul da Ilha (o mais rápido possível) ela nos mostrou um caminho alternativo pelo meio das cachoeiras de pedras escorregadias. Nem o meu super tenis timberland aguentou fixar os pés naquelas pedras, escorregávamos de 2 em 2 segundos e a Cholita desencanou de nos acompanhar e saiu correndo com seu sapatinho na frente. Estávamos abandonadas...

Com muito custo chegamos do outro lado da Ilha para encontrarmos nossas coisas e a Cauane. Batemos na porta, batemos mais algumas vezes e não obtemos sucesso. Parecia que a Cauane tinha saído. Fomos conversar com a índia dona do alojamento e ela nos disse que a menina loira tinha ido embora e que não daría a chave para nós entrarmos no quarto. Eu quase começei a chorar, sorte que um argentino (um anjo) entendeu nossa aflição e explicou com a irredutível dono do alojamento que precisávamos pegar nossas coisas lá.
Entramos no quarto e avistamos em cima de nossas coisas um bilhete bem delicado da Cauane dizendo que não iria nos esperar e no final: "BOA VIAGEM!"
Fomos pegar o barco para Copacabana, durante a espera, algumas crianças cholas vinham nos azucrinar e resolvemos azucriná-las também. Paramos para jogar xadrez e uma menininha sorridente ficou olhando a gente jogar e querendo surrupiar as peças. Ai eu falava para ela: "OI, TEM DINHEIRO, TEM MOEDAS, TEM CARAMELITOS, TEM GARRAFAS, ME DÁ 10 BOLIVIANOS". Nenhuma criança mais apareceu...

Voltamos à Copacabana e encontramos a Zoca (graças aos deuses). Triste porque seu dinheiro tinha ficado com a Cauane.
Partimos para o Peru.

-Cuzco e blu bono vox
Cuzco é lindo demais. Lá encontramos a Cauane que estava hospedada num alojamento bem baratinho e ficamos com ela lá. A Zoca bodiou da viagem, pagou uma nota no trem e foi para Machu Picchu e depois voltou para o Brasil. Parece que a volta dela foi tensa também, mas essa parte não sei contar...
Eu, a Carol e a Cauane conhecemos uma hippie carioca chamada Blue Bono Vox, que adorava pedir dinheiro para nós também... Mas ela nos ensinou um caminho mais barato para Machu Picchu e lá vamos nós (para mais uma furada)...
O trem para Machu Picchu é coisa de gringo europeu ou dos EUA, nós não tínhamos condições (até tinha) para pegá-lo e fomos pelo caminho da Hippie mesmo.

-Caminho de Machu Picchu
Era um dia chuvoso. Pegamos um taxi que nos levou até o terminal (não muito conhecido) de Cuzco. É um terminal que só os locais conhecem, viajantes, estrangeiros nunca ouviram falar. O taxista combinou um preço conosco, mas quando se deu conta (um tempo depois) que a viagem não era aquela que pensava quis cobrar mais. Aí dissemos: "HUM, QUANDO O SENHOR PARAR O CARRO A GENTE TE DÁ O RESTO". Me lembro até hoje a música que tocava naquele taxi, era Perfume de Gardenias. Quando o senhor taxista parou o carro, nós dissemos: "GRACIAS, HASTA LUEGO". E ele: "E O RESTO DO DINHEIRO?" e nós: "NÃO TEMOS! CIAO". Demos um golpe...
Mas Deus castiga. E nos castigou...

Pegamos um ônibus mais velho que Tutankhamun rumo a Santa Monica. Mas a hippie esqueceu de nos avisar que o ônibus passava por baixo das cachoeiras e rente aos precipícios. Lembre-se Peru é só montanha, por isso que encontraram Machu Picchu séculos depois. O onibus escalava e descia montanhas, o problema que o espaço era muito curto e as montanhas muito altas, ou seja, a beira do abismo mesmo. Dava muito panico, rezei muito, virei muito católica, umbandista, budista e todas as crenças naquela viagem, principalmente quando eu percebi que a estrada era de mão dupla, as vezes acontecia de um ônibus parar na frente do outro. Mas o que fazer se não havia espaço para os dois passarem? Relaxa, os peruanos davam um jeitinho... Nessas horas eu pensei na minha família, em meus amigos e num suspiro de um quase adeus a vida!

Como chovia muito aconteceu uma coisa terrível (relaxa, sobrevivi para contar histórias): A "estrada" (entre aspas porque aquilo devia ser uma trilha inca, não estrada para transportar pessoas) desbarrancou! Não tinha jeito de passar e havia uma fila gigante de onibus parados dos dois lados esperando para passar ou para voltar. Os homens estavam trabalhando com seus tratores para deixar a "estrada" firme e passar os onibus.
Esperamos aquilo, por 5 horas (talvez mais), já era noite quando conseguiram consertar a estrada. Só que não podíamos passar dentro do onibus (era muito perigoso), os passageiros deveriam passar correndo primeiro e depois o onibus. Até hoje me pergunto sobre o que deve ter passado na cabeça do motorista aquele dia.
Esqueci de contar um detalhe do ônibus: os passageiros. Eu e a Carol estavamos juntas e a Cauane foi atrás com outro passageiro. Um passageiro super agradável, ele era desequilibrado mentalmente e viajava com uma sacola com 4 cachorros dentro, que cagavam perto da Cauane.

Ufaa chegamos à Santa Monica. Só que completamente fora do horário que pensavamos em chegar. Tivemos que passar uma noite por lá. Procuramos um lugar pra comer e jogar sinuca. Conheci um menino que amava musica brasileira, era adolescente e eu achei super legal, ele disse que ia colocar uma música e dedicar para nós, brasileiras. Ele colocou no último volume: Calipso...
No meio daquela confusão danada da "estrado" conhecemos uns brasileiros que fizeram aquela parte do precipício de bike (eram mais malucos que nós). Em Santa Monica nos encontramos, eles que tinham fechado um tour com tudo pago e nós nos infiltramos no tour deles. Acabamos que nem tivemos que passar a noite em Santa Monica, voltamos no alojamento e conversamos com o cara que não íamos mais ficar (foi tudo tranquilo). Pegamos uma carona até Santa Tereza numa Van que eles locaram. Era madrugada!
Chegamos em Santa Tereza e passamos a noite por lá. No outro dia conhecemos umas termas de água e cerveja muito quente...
Depois rumamos para a trilha do trem. Como assim trilha do trem?? Calma eu explico!
Em Santa Tereza atravessa um rio muito famoso que corta muitos países, é o rio Urubamba. Em determinados pontos ele é muito caudaloso, ou seja, ele é muito, demasiadamente, muitissímo agitado e barulhento atormentador. Nós tínhamos que pegar um caminhão que nos levaria até a trilha do trem (do caro de gringo) e íamos andando pelos trilhos até chegar a Aguas Calientes (município de Machu Picchu).
Bom, só que não nos avisaram (mais uma vez) que teríamos que atravessar o trem por uma tiroleza (e detalhe: tiroleza manual, nós que puxaríamos a corda), e outro detalhe importante é que a parte mais agitada, mais caudaloso era exatamente aquela parte que estávamos.
Naquele momento, mais uma vez, suspirei e despedi-me da vida (mas se eu morresse alí, depois de tudo que passei, eu morreria feliz)... Lá em baixo a água descia o rio violentamente, batia nas pedras que levantavam a água por meio metro (ou mais, não tenho noções dessas coisas).
Passamos o rio, eu atravessei na gaiola com o Nicolas, estava morrendo de medo de errar nas cordas, mas os dois estavam fora de forma o que foi mais um motivo de temer...
Ufaa passamos todos bem e vivos! Aí sentamos por um instante e esperamos o tal caminhão. Eu não entendia porque as pessoas falavam: "VOCÊ ESPERA O CAMINHÃO!" por que eles não falavam ônibus?? Logo veio a resposta...
Era um caminhão de verdade. Nós íamos em pé lá atrás, balançando, chacoalhando, igual trabalhadores nordestinos no pau de arara... A diferença que o visual da natureza tocava cada vez mais o coração.
Chegamos nos trilhos do trem, caminhamos por cima das madeiras (tem um nome mas esqueci agora), por horas a fio. Umas 5 horas mais ou menos. È incrível como aquele país tem muitas energias, as montanhas formavam a silhueta de homens, de animais, de índios. O coração desparava, dava medo, ansiedade e muito amor... (depois conto como minha vida mudou).
Andando, andando, quase nos perdemos, mas conseguimos chegar salvos à Aguas Calientes. Era uma cidadezinha muito luxuosa, tudo era caro (por causa dos estrangeiros), para chegar a Machu Picchu essa parada era obrigatório, aí os caras que nem gostam tanto de dinheiro e levar vantagem em tudo, metiam a faca nos preços, inclusive Machu Picchu...
Naquela noite, resolvemos descansar por que não queríamos pagar muito caro pra entrar em Machu Picchu (afinal só é justo pagar para Deus, lá é patrimonio da humanidade). Íamos tentar entrar escondidas, as 5 da matina (antes do horário de abertura), a hippie (Blue Bono Vox) que nos ensinou isso, o conselho dela foi assim: "VOCÊS ACORDAM BEM CEDO E VÃO FAZER A TRILHA DE 1 HORA MAIS OU MENOS, AÍ ESCONDIDAS VOCES PASSAM POR TRÁS DA BILHETERIA[ABAIXADAS] E ESCONDEM-SE EM ALGUMA RUÍNA). Tentamos seguir o conselho da Blue (acho que não falei o porquê ela chama Blue Bono Vox? È porque ela tem o cabelo cheio de drads até o joelho e todo azul). Chegamos para fazer a trilha, teríamos que subir uma montanha. Só que subir uma montanha com mais de 3.000 metro de altitude é coisa para incas e não brasileiras cansadas. Demoramos horas para conseguir chegar lá em cima. Os velhos gringos e ricos sobem com um ônibus (super confortavel) e nós subimos com o oscar (os calcanhar). Tentamos fazer um teatro. O roteiro foi o seguinte: A Carol encheria a boca de água e fingiria que estava vomitando, eu ia ajudá-la a sentar e passar a mão na cabeça dela e a Cauane ia parar um onibus e tentar convencer o motorista para nos levar lá pra cima. Só que tinhamos que fazer tudo isso sem dar risada... E não é que conseguimos!! Conseguimos não dar risada, porque a carona não deu... Os motoristas diziam que não era possível!
Então lá vamos nós...

- Machu Picchu
Acho que não sei descrever tudo o que senti naquele lugar. Eu sentei um instante para agradecer a Deus (aos deuses) por existir algo tão lindo e tão mágico. Tudo envolve magia, tudo é inexplicável... Não é a toa que em torno daquele lugar tem tantas hipóteses de extra-terrestres, tem coisa que não dá pra explicar! Cada uma foi para um lado, curtir seus pensamentos e criar sua própria teoria. A Cauane e a Carol foram para um lugar e eu fui para outro.
Encontramos-nos no final da tarde e curtimos o pôr-do-sol e voltamos trilha abaixo! A volta foi tranquila, roubamos os bastões emprestados aos visitantes de Machu Picchu, mas depois descobrimos que aquele bastão é mágico, ninguém consegue tirá-los do Peru. Nós o esquecemos no alojamento e a hippie nunca conseguiu tirar aquele bastão do Peru, ela sempre esquecia em algum lugar...

-volta para cuzco e a balada mama africa
Na volta resolvemos pagar para ir de trem mesmo. Depois de Machu Picchu, tudo vale a pena. Era bem confortável o trem. Meu Deus, eu merecia um instante de despreocupação. Porque afinal aquele instante seria curto...
Voltamos para Cuzco, porque todas nossas coisas estavam lá aos cuidados do Felipe, da Blue Bono Vox e seu marido cineasta. As meninas queriam muito curtir a noite de Cuzco, realmente era muito boa, uma baladinha cheia de pessoas bonitas e que tocava 'È o tchan' quando pedíamos música brasileira.
Eu queria ir embora encontrar um amigo boliviano em La Paz, mas soube por minha mãe que na Bolívia estava tendo uma revolução. Os caras estavam saqueando ônibus, tacando pedras, entrava o exercito no onibus e revistava tudo. Aí desisti de ir sozinha e esperei as meninas curtirem mais uma noite em Cuzco na balada Mama África.
Na balada, a Carol resolveu ficar muito bebada e eu resolvi cuidar dela. Ela estava ficando com um argentino que queria segui-la por todos os lugares, inclusive quando eu a levei ao alojamento. Não me lembro direito, mas acho que eu também fiquei conversando com um argentino lá. Pois, não sei como, eu estava dormindo no quarto com a Carol (desmaiada) e um cara começou a bater na porta gritando: "Anne! Anne! Abra a porta!", Fiquei morrendo de medo, pois estava praticamente sozinha num alojamento no meio do nada, com uma morta-viva bebada ao meu lado e um estrangeiro gritando meu nome e socando a porta. Só sei que o abestado do Felipe deixou ele entrar no quarto e eu fingi que estava dormindo...

- Voltando para a Bolívia e onibus errado
No terminal de onibus compramos uma passagem que dizia que nos levar direto à La Paz. Mas era uma pegadinha (sem graça) peruana. O onibus parou dentro de um terminal no Peru e mandou todo mundo descer que era o ponto final. A Cauane ficou muito nervosa e foi valente, foi brigar com umas pessoas da linha desse onibus e conseguiu arrumar nosso dinheiro de volta e uma van de graça que nos levaria para La Paz.
Aquela van tinha um cheiro horrível e a Carol estava passando mal ainda. De ressaca vomitava dentro de um saco plástico, suava muito, estava pálida. Tivemos que parar na fronteira do Peru para dar baixa na saída do país e andarmos mais um pouco para chegar na polícia federal boliviana e dar baixa na nova entrada do país. Mas estavamos com uma mala muito pesada para andar o mínimo que fosse.
Eu e a Cauane fomos na frente e a Carol quase morrendo atrás. De repente eu ouço alguém chamar lá na frente: "E AÍ MENINAS?? TO DE BUENA AQUI!". Era a Carol que pagou um menino taxi para carregá-la em sua bicicleta. Ela ainda dava tchauzinho para nós...
Aquela cidade fronteira era um lixo cidade. Muito fétida e com lixo espalhado no chão. Pegamos outra van que nos levaria à La Paz. Mas como demorou... Uma cholita (muito atenciosa) veio perguntar-nos para onde nós íamos, dissemos La Paz e ela falou, cuidado, lá é muito perigoso! Nós não entendemos, porque já estivemos uma vez em La Paz e achamos sussa. Mas a resposta veio em breve...

Acontece que La Paz é um vale. Em baixo, no centro do vale é onde fica o palácio do governo, os museus, os hostels legais, as baladinhas, o mercado das bruxas, etc. No alto do vale é outro esquema: Muito, muito, muito, muito perigoso! Quando descemos da van, demos conta que não estavamos seguras e não conhecíamos aquele lugar!
A Carol estava passando mal e a Cauane não queria ficar mais um dia naquele lugar. Fiquei dividida, mas não achei justo deixar a Carol, já que a Cauane já tinha nos abandonado uma vez, peguei a Carol e fui procurar um taxi para nos levar lá embaixo do vale. A Cauane foi para um lado e nós para outro...
Só que eu e a Carol só tínhamos dólares e nenhum taxi queria aceitar. A gente até queria pagar mais, só que os caras não aceitavam (não sei porque). Mas não podíamos ficar mais nem um segundo naquele lugar assustador! Resolvemos não contar ao taxista que só tínhamos dólares e ele nos levou lá para baixo. Não me esqueço daquele lugar esquisito... Chegando lá para baixo nós agradecemos o taxista e demos nossos dolares para ele e ele: "NÃO, NÃO QUERO DÓLARES". E nós: "GRACIAS, HASTA LUEGO! TCHAU". Minha consciencia está tranquila, pois demos mais dinheiro do que ele cobrou. Acho que eles estavam com preguiça de cambiar o dinheiro, não é possível...

-Banheiros de La Paz

Já tinha passado quase um mês que estavamos viajando. E chegou uma hora que aquela brincadeira estava ficando sem graça. Mesmo porque eu estava com muita dor de barriga e conheci todos os banheiros de La Paz...
Eu e a Carol estavamos exaustas. Pegamos um onibus que nos levaria até Santa Cruz novamente e lá pegaríamos o avião para Sampa.
No caminho (trash) o onibus parava um milhão de vezes e uma vez entrou o exército e começou a revirar as coisas de todo mundo. Ele olhou para nossa cara e não revistou nossas coisas! Ufa, depois nos deixou passar... Aquela viagem foi tensa!
Chegamos no aeroporto e ainda tivemos que dormir lá. Eu não tinha mais 1 dólar, 1 boliviano, 1 real, 1 paciência, 1 pau para dar no gato.

-Volta para casa
Ver minha casa, minha cama, minha mãe e a comida dela, minha família, minha cachorra é inexplicável... Principalmente porque pensei tantas vezes que não os veria nunca mais!

Nossa viagem virou uma piada! O golpe do Samuca virou tema de PodCast. Mas o que eu aprendi naquilo tudo não teve preço, as coisas que eu vi, as coisas que senti, a experiencia de ter que se virar, as dores, os momentos de desespero e de saudade, só sei quando não tento explicar. Sim, nos demos mal muitas vezes... Mas hoje tudo virou piada! E a experiencia só quem passou entende!!
Depois tudo ficou bem. Nós nos reencontramos, fizemos as pazes, entendemos umas as outras. Ninguém foi egoísta, ninguém teve desamor, só que cada um é cada um e temos que respeitar né?! É a arte de viver. Como diz Paulinho da Viola: "Consumir é viver, conviver é sumir", embora eu não concorde com isso, faz sentido... Nossos laços ficaram muito consolidados depois dessa viagem e percebemos que "tudo vale a pena se a alma não é pequena", esse clichê aí é para mim o lema dessa viagem. Dessa louca viagem.
Se quiserem conhecer o perfil do Samuel é este aqui: http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=8887243302193904456
Sim, não sei como conseguimos cair nessa. Mas caímos!

Dedico essa história às meninas: Carol, Zoca e Cauane

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