quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A relatividade do ser

Ela sentada no sofá com as pernas encolhidas fumando um cigarro e olhando os próprios pés. Não, não estava nem vendo o que olhava, pensava simplesmente nele. Ele em pé diante das taças de vinho, tentando imaginar o que ela poderia estar pensando. Sabia exatamente que ele era o sujeito que vagava nos pensamentos dela.

- Estratagemas! pensou Tereza aflita.

Pouco se conheciam. Há quase três anos que estavam juntos, mas nunca conversavam. A relação se baseava apenas na imaginação, ela pensando que ele era o que somente imaginava. Pensava e convencia-se que ele era o que estava no plano interior. Ele a mesma coisa, nunca foi capaz de interpretar um olhar de Tereza, nunca a escutou nem sabe direito as coisas que ela fala.

Diego e Tereza tinham assim, essa relação que se baseava na imagem da imaginação.

Enquanto Diego bebia o vinho, olhava Tereza. Tereza ainda com a cabeça baixa, já não olhava mais para seus pés, olhava o tapete, fingia observar a formiguinha que rebolava sobre a sala. Não pensara na formiga em nenhum momento, aliás só pensou que deveria olhá-la para que Diego não pensasse que ela estivera pensando nele.

Ele aproximou-se. Tocou em suas pernas, abriu-as levemente. Ela levantou seu olhar, em seus olhos clamava pelo silencio. Ele não queria ouvir, sabia que ela queria deixá-lo. Diego sempre apela à sexualidade, foi arrastando suavemente sua mão entre as pernas de Tereza. Tereza fechava os olhos, queria chorar, queria dizer: Basta!! Mas a única coisa que conseguia era apertar bem forte suas mãos, para não escorrer uma lágrima, substituiu o brilho e leveza de uma lágrima por suas unhas encravadas na palma de sua própria mão.

- Pare Diego! – disse Tereza

- Você quer terminar? – perguntou Diego

Tereza sabia que essa era a armadura de Diego. De uma semana pra cá, de uma mísera semana pra cá, Diego resolveu vestir-se em armaduras. Estava mais armado como nunca, armado até os dentes.

Logicamente Tereza se sentiu insegura com um canhão apontado em sua testa:

- Estratagemas! – pensou novamente Tereza. Diego exclamava palavras milimetricamente pensadas. Quando perguntou se Tereza desejava terminar com ele, olhou-a com piedade, pediu abrigo só para estar mais fortalecido, mais do que estivera na última mísera semana.

- Acho que me desempolguei Tereza. Não sei mais, estou confuso. Não sei se quero continuar com isso. Você quer terminar? Disse Diego, com os olhos altos, sem piedade, com o peito estufado e com os lábios entre- aberto, quase sorrindo, um sorriso doentio, satírico e humilhador.

Tereza olhou-o. Com um olhar assustado, em silencio pediu que lhe dissesse mais sobre aquilo. Pediu sem falar uma única palavra.

Diego prosseguiu:

- Você suportaria viver sem mim?

Tereza andava tristonha naquela última semana, sentiu que Diego levantava muito seu olhar, respirava mais fundo, comia mais e desenrolava qualquer assunto com mais facilidade. Ela que sempre desejara a tranqüilidade, agora tinha que se preocupar com o ego do homem em que era casada.

Repeti com ódio para si mesma:

- Ele se armou. E agora? Meu Deus, quais são minhas armas??

Tereza não tinha arma, nem sabe o que era isso e foi caindo, caindo, caindo até que chegou lá em baixo e a mesma proporção que ela despencava Diego subia, subia, subia. Proporcionalmente inverso.

Prazeres violentos têm fins violentos.

**Conto baseado em quatro distintas histórias. Mas a conclusão é a mesma matemática, aritmética e exatidão de sempre... A segurança do ser- humano é proporcionalmente insegura para o mesmo. Prazeres violentos têm fins violentos, é como o show de uma orquestra, aquela porção de instrumentos tocados de uma vez te leva ao mais perturbador prazer. Conto sem doçura..........

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