Agora era como o dilúvio. Passara tempos em cima de um tripé, hoje foi concedida duas pernas, agora ela podia andar e ir para onde quer e talvez sempre quis, mas por que sentira tanta falta daquela terceira perna que a deixara imóvel?
O vento que bate no quarto é denso e pesado, quase a derruba, imóvel... Não tem como começar a pensar o que fazer a partir de agora, disseram que há de esperar pelo tempo. Mas como esperar pelo tempo se o tempo que é o instante- já faz sentir o pouco tempo que passa? Mas como esperar pelo tempo, se o tempo é que continua a prende-lá nesse chão, frio, nesse ar pesado, imóvel e denso?
Ela já não sabia mais o que fazer. É de uma tristeza quase alegre que enfim conseguiu tirar a terceira perna, mas acostumara com o equilíbrio estático da terceira perna..
Escreve para tentar salvá-la dessa angústia, mas só consegue salvar o lápis e o papel, por terem sidos retirados do seu habitat para servir ao pequeno homem que não encontra soluções apenas poucos alívios. O pequeno homem que tenta fazer da arte sua revolução, mas não ajuda a ninguém, tão pouco a si mesmo.
Cansada mas sem estar feliz, levanta lentamente desse chão, mas ainda não sabe para onde ir, todos os caminhos que reluzem só levam ao abismo, acreditou que primeiramente precisa sair do chão quando estiver completamente curada. Lembra a todo o instante de sua terceira perna, que a deixava em pé, olhando pra um só caminho. Mas agora seria ridículo sentir saudades dela que tanto a desejou sua extinção. Porém se sentiu ridícula mesmo assim e deixou a ridiculeza tomar conta do seu ser, sabe que sendo ridícula, irá mais próximo dela mesma, acostumou-se com a idéia de ser ridícula. Achou graça, afinal o ridículo leva ao riso. E riu mais uma vez e passou instante duradouros a rir, já faz tempo que ve sua situação como o centro de um grande circo, ela consegue ser o personagem engraçado dela mesma...
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